Onde está o Rei dos Judeus?

Palestra da Irmã Joela, Irmandade Evangélica de Maria,
na Convenção A Igreja e Israel, 9 a 11 de novembro de 2006,
em Berlim, Alemanha.

Uma Questão para o Corpo de Cristo no Século 21

Ao mencionarmos o tema “Israel e os Judeus”, as pessoas com freqüência sentem-se incomodadas. Por quê? Pelo fato de haver opiniões divergentes? Discussões acirradas por um lado – total desinteresse de outro? Ou será que notamos que ainda sabemos muito pouco a respeito da questão? Precisamente diante desse tema somos confrontados com sofrimento e culpa. Somos também confrontados com o mistério do povo escolhido e da natureza insondável de Deus.

      Muitas pessoas têm a tendência de evitar pensar nesses assuntos, escondendo-se por trás de argumentos e opiniões pré-estabelecidos. Como cristãos, encontramo-nos particularmente em perigo de nos tornarmos amigos confortadores de Jó, que deram respostas corretas, mas estavam equivocados aos olhos de Deus. Com certeza, a atitude apropriada de nossa parte é aquietar-nos e ouvir o que Deus nos tem a dizer. É isto o que queremos fazer agora.

      Com o transcurso do tempo desde aReichspogromnacht de 9 de novembro de 1938 (a noite em que foi instigada oficialmente a queima das sinagogas e a depredação das lojas de judeus na Alemanha), torna-se cada vez mais difícil relembrar o acontecimento de um modo significativo. Após cerca de 70 anos, alguns poderão questionar, por quanto tempo estes atos memoriais deverão ter continuidade. No entanto, por mais gratos que sejamos por qualquer placa e lugar memorial, por toda palestra e ato de recordação, por toda a literatura e esforço “contra o esquecimento”: tudo isso nunca será o suficiente. Por que não? Porque a simples lembrança não atinge a raiz do problema.

Todos nós sabemos como lidar com ervas daninhas: precisam ser extirpadas pela raiz. Cortar apenas a parte superior não traz resultados a longo prazo. Apesar da nossa intenção de subjugá-las, as raízes do anti-semitismo continuam brotando no mundo inteiro, inclusive em nosso país. Hoje queremos tentar chegar à raiz do problema. Para isso precisamos retroceder na História.

      Exatamente nas primeiras páginas do Novo Testamento nos defrontamos com a questão: “Onde está o recém-nascido Rei dos judeus?” (Mateus 2.2). Essa questão expressa desde o início a verdadeira identidade de Jesus: define-O como Rei, e Rei de um determinado povo. Foi essa primeira questão a respeito dEle que resultou no primeiro mandado de morte contra Ele. Para assegurar-se de que esse novo rei fosse removido, Herodes atacou o povo, matando todos os pequenos meninos no distrito de Belém.

      Essa tática contra o Rei dos reis e o Senhor dos senhores não tem mudado nos dias atuais. O povo judeu é atacado a fim de se atingir e neutralizar a Deus. O ódio irracional direcionado contra os judeus provém do ódio contra Alguém maior e mais poderoso, que é considerado uma ameaça para nossa posição; assim não difere em nada da reação de Herodes. É o próprio ódio contra Deus.

      Após 30 anos de obscuridade, Jesus atua abertamente durante cerca de três anos. Esse ministério O leva a Sua Paixão, onde Seu julgamento público culmina com a pergunta: “És tu o rei dos judeus?” (Mateus 27.11). Pouco depois, quando Ele foi zombado e coroado com espinhos, lemos que os soldados cuspiram nele, batiam na Sua cabeça e gritavam: “Salve, rei dos judeus!” (Mateus 27.29-30). Quando Ele foi crucificado, colocaram uma inscrição acima da Sua cabeça com a acusação feita contra Ele: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus” (Mateus 27.37). Estava escrito não apenas em hebraico, mas também em latim e grego, o que serviu para tornar internacional a humilhação pública tanto do rei como do povo.

      Desde o Seu nascimento até a morte, Jesus esteve inseparavelmente ligado ao Seu povo. Aqueles que perseguem e condenam Jesus, fazem o mesmo ao Seu povo; e aqueles que perseguem e condenam Seu povo, fazem o mesmo a Jesus. Porém, nós, que devemos nossa eterna salvação a este Rei dos judeus, desde o início sentimo-nos no direito de desassociar Jesus do Seu povo. Ficamos felizes em receber Sua graça e Suas bênçãos, e deixamos os julgamentos e maldições para o Seu povo.

      Durante quase 2000 anos de história da Cristandade, demos ao nosso irmão mais velho Israel – o primeiro filho de Deus (Êxodo 4.22) – a posição mais insignificante. Nosso irmão mais velho foi tratado como se fosse o menos importante. No grande julgamento descrito em Mateus 25, Jesus refere-se aos Seus menores irmãos. Ali não seremos apenas questionados pelo auxílio prestado aos socialmente desamparados. Jesus nos questionará especificamente a respeito daqueles que Ele colocou em primeiro lugar, e os quais nós havíamos colocado por último: o povo judeu.

      Jesus identifica-se completamente com esses “menos importantes” dos Seus irmãos e adverte que tudo aquilo que não fizemos a eles, deixamos de fazer a Ele (cf. Mateus 25.31ss). Esse julgamento será seguido por uma “seleção” ou “separação”, um processo com o qual nós, alemães, estamos por demais familiarizados. Mais do que qualquer outra raça, o povo de Deus foi tratado como o mais desprezível e depreciado. No decorrer dos séculos, repetidamente aconteceram incidentes, em pequena ou larga escala, com o propósito de humilhá-los, degradá-los e destituí-los de toda sua dignidade.

      Recentemente, uma mulher judia contou-nos sobre um incidente na sua infância. Na sua escola, anualmente era apresentada uma peça de Natal. Quando chegou a hora da escolha dos personagens, ela pediu para que pudesse representar o papel de Maria. “De maneira alguma!” foi a resposta, “você é judia!” Ela então perguntou se podia representar um anjo ou um dos pastores, mas também não foi considerada suficientemente boa para estes papéis. Parece ser um relato muito trivial comparado com outras histórias que ouvimos, mas serve para ilustrar a nossa cegueira e arrogância como cristãos.

      Naturalmente podemos objetar que isso não acontece mais em nossos dias: pois aqui na Alemanha foi sancionada a lei da anti-discriminação e que a tolerância é o tema relevante do dia – tudo isso a expensas dos valores cristãos tradicionais. Mas qualquer um que prestar atenção às reportagens da mídia sobre os eventos no Oriente Médio, esforçando-se para analisá-las e averiguá-las atentamente, perceberá um padrão de falsidade semelhante. É difícil escapar dos efeitos de jornalismo tão tendencioso e até mesmo os cristãos são influenciados por ele.

      Não estamos procurando idealizar aqui o povo judeu. Ele não é melhor nem pior do que os outros povos, conforme mostram os relatos francos e verídicos contidos na Bíblia. Os judeus necessitam da redenção tanto quanto todos nós. Não, a questão é que nos temos acostumado com um padrão distorcido e enganoso de dois pesos e duas medidas.

      Quer nos apercebamos disso quer não, continuamos persistindo em nossa arrogância estabelecida há muito tempo: ela apenas assumiu uma forma diferente. A convicção de que nós, a Igreja, somos o povo escolhido da Nova Aliança e substituímos os judeus, ainda continua profundamente arraigada dentro de nós, e de um modo ou de outro, imaginamos que temos o direito de criticar e corrigir o povo da Antiga Aliança. De fato, o que deveria estar bem claro para nós é que a Nova Aliança no sangue de Jesus foi feita originalmente com judeus, e não com gentios. Foi somente pela graça de Deus que ela foi estendida aos gentios após Pentecostes. No entanto, em nossa cegueira, não apenas condenamos e ferimos profundamente o povo da Antiga Aliança, como também o próprio Jesus. Através dos séculos prolongamos os Seus sofrimentos. Nós queremos o Rei, mas rejeitamos o Seu povo.

      O único guia confiável em nossa época turbulenta é a Bíblia. Isto parece soar como fundamentalismo, um rótulo que não desejamos possuir. No entanto, temos que aceitar o fato de que, se crermos na Bíblia, as pessoas poderão nos acusar de sermos fundamentalistas. O inimigo de Deus, a quem Jesus chama de pai da mentira (João 8.44) e o príncipe deste mundo (João 12.31), compreensivelmente intenta promover a interpretação seletiva da Bíblia, para manter-nos cegos a respeito de questões importantes. Ele sabe que, ao fazer isso, poderá bloquear o nosso entendimento com relação aos planos de Deus para o mundo e o seu cumprimento.

      Esta é a razão pela qual o maravilhoso plano de salvação de Deus para com Israel e a Igreja, conforme é descrito, por exemplo, por Paulo em Romanos, capítulos 9 a 11, raramente é compreendido e sua significação pouco reconhecida. Precisamos aprender de novo a orar: “Vem Espírito Santo, Tu és o Espírito da Verdade e queres nos guiar a toda a verdade; abre-nos as Escrituras para que possamos chegar a uma compreensão nova e correta.”

      Embora as passagens proféticas das Escrituras possam estar sujeitas a várias interpretações e geralmente encontrem seu cumprimento em vários níveis, focalizemos alguns textos e sua relevância para os nossos tempos.

      Pensando no dia 9 de novembro de 1938, a noite dos pogroms na Alemanha:

Volta os teus passos para aquelas ruínas irreparáveis, para toda a destruição que o inimigo causou em teu santuário. Teus adversários gritaram triunfantes bem no local onde te encontravas conosco, e hastearam suas bandeiras em sinal de vitória. Pareciam homens armados com machados invadindo um bosque cerrado. Com seus machados e machadinhas esmigalharam todos os revestimentos de madeira esculpida. Atearam fogo ao teu santuário; profanaram o lugar da habitação do teu nome. Disseram no coração: “Vamos acabar com eles!” Queimaram todos os santuários do país.

Salmo 74.3-8 NVI

      Semelhantemente somos lembrados de 1948:

Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que nunca mais se dirá: Tão certo como vive o Senhor que fez subir os filhos de Israel do Egito; mas: Tão certo como vive o Senhor, que fez subir os filhos de Israel da terra do Norte, e de todas as terras para onde os tinha lançado. Pois eu os farei voltar para a sua terra, que dei a seus pais.

Jeremias 16.14-15

      Assim, quando pensamos no dia da fundação do Estado de Israel, recebendo oposição de todos os lados, somente podemos repetir admirados as palavras de Isaías:

Quem já ouviu uma coisa dessas? Quem já viu tais coisas? Pode uma nação nascer num só dia, ou pode-se dar à luz um povo num instante?

Isaías 66.8 NVI

      Os seguintes versos lembram-nos da situação atual em que, conforme se torna evidente pelas reportagens da mídia, não apenasuma nação, mas uma série de países vizinhos de Israel declaram sua intenção de prosseguir na “solução final” (apagar Israel do mapa). Em nossa época ninguém pode afirmar que não soube nada a respeito:

Vê como teus adversários te desafiam de cabeça erguida. Com astúcia conspiram contra o teu povo; tramam contra aqueles que são o teu tesouro. Eles dizem: “Venham, vamos destruí-los como nação, para que o nome de Israel não seja mais lembrado!”

Salmo 83.2-4 NVI

      Então segue uma lista de nações que nos soam familiares, se substituirmos os velhos nomes por aqueles que existem atualmente.

      Tudo isso está acontecendo diante dos nossos próprios olhos. Tão certo como essas palavras estão sendo cumpridas, da mesma maneira o Senhor lidará com as nações no tempo exato. Pois, se Deus não poupou os ramos naturais, também não poupará os ramos enxertados na oliveira de Israel:

Destruirei completamente todas as nações entre as quais eu o dispersei; mas a você não destruirei completamente.

Jeremias 46.28 NVI

Assim diz o Senhor dos Exércitos: ‘Eu tenho sido muito zeloso com Jerusalém e Sião, mas estou muito irado contra as nações que se sentem seguras. Porque eu estava apenas um pouco irado com meu povo, mas elas aumentaram a dor que ele sofria!’

Zacarias 1.14-15 NVI

Sim, naqueles dias… quando eu restaurar a sorte de Judá e de Jerusalém, reunirei todos os povos e os farei descer ao vale de Josafá. Ali os julgarei por causa da minha herança – Israel, o meu povo – pois o espalharam entre as nações e repartiram entre si a minha terra.

Joel 3.1-2 NVI

      Deus comprometeu-se com um lugar geográfico específico na terra. Quando Jesus voltar, será em Jerusalém e Seus pés estarão sobre o Monte das Oliveiras (cf. Zacarias 14.4). Aqueles que desejam entrar na Cidade de Deus, só serão capazes de fazê-lo se entrarem pelas portas  em que estão escritos os nomes das doze tribos de Israel (Apocalipse 21.12). Mesmo as doze pedras fundamentais da Cidade têm nomes judaicos (Apocalipse 21.14). Assim como Jesus disse: “A salvação vem dos judeus” (João 4.22).

      Durante doze anos o nosso povo alemão saudou Hitler como nosso salvador – justamente aquele que odiou e assassinou os judeus! (A palavra Heil em Heil Hitler significa “cura” ou “salvação”!). Isso tudo apesar do fato de conhecermos e confessarmos de que não existe salvação em nenhum outro nome, a não ser no Nome de Jesus (Atos 4.12). Milhões de mãos se levantaram no brado de “Heil Hitler!” O que fizemos! Existe apenas uma Pessoa a quem devemos levantar nossas mãos, não em saudação humana, mas em adoração – Jesus, a quem devemos nossa salvação. Estou convencida de que, mesmo após tantos anos, Deus ainda espera pelo arrependimento de muitos cristãos na Alemanha.

      Quão envergonhados ficamos de que são muitas vezes aqueles que não têm nenhuma conexão com a Igreja, que tomam a iniciativa e buscam reparar o passado do nosso país. Com certeza deveria ser o contrário! O peso da culpa pelo passado pesa mais duramente sobre os cristãos do que sobre as outras partes da população. Por quê? Porque à luz das Escrituras poderíamos e deveríamos ter melhor conhecimento do que os outros. Nesse caso são relevantes as palavras de Jesus em Lucas 12.48: “A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido.” Jesus deixa claro que aqueles que tiveram mais conhecimento serão punidos mais severamente do que os outros.

      A 27 de janeiro de 2006, o sobrevivente do Holocausto, o docente Ernst Cramer proferiu um discurso diante do Parlamento alemão. Ele abordou os horrores inconcebíveis que presenciara no Terceiro Reich, com o comentário: ”O que mais me chocou naquela época foi o silêncio quase total por parte das igrejas cristãs.”

      Durante os anos passados surgiu uma explicação para este silêncio. Várias iniciativas puseram a descoberto outros aspectos concernentes ao envolvimento ativo de várias partes da Igreja Evangélica Alemã (Landeskirche) com o Instituto de Eliminação da Influência Judaica*, em Eisenach. Eles publicaram um Novo Testamento, hinário e catecismo, dos quais haviam sido eliminadas todas as raízes judaicas do cristianismo. Foi uma tentativa de desassociar verdadeiramente o Rei dos Judeus do Seu povo, teológica e academicamente.

*Institut zur Erforschung und Beseitigung des jüdischen Einflusses auf das deutsche kirchliche  Leben (Instituto para a investigação e eliminação da influência judaica na vida da igreja cristã)

      Hoje em dia é crucial que tomemos uma posição espiritual. Se quisermos evitar que a história se repita, devemos parar de tentar separar o Rei do Seu povo. Entretanto, não podemos confiar em nossa própria força de caráter para vencer essa luta. Nós, que somos da segunda e terceira geração, provavelmente seremos capazes de falhar exatamente como os nossos pais e avós antes de nós – a não ser que realmente cheguemos a conhecer e amar a Jesus, que é o único que pode nos ajudar. Se pensarmos que podemos fazê-lo sem Ele, sem oração e sem permitir que Ele corrija o nosso rumo, estaremos em perigo de sermos apanhados desprevenidos.

      Onde está o Rei dos judeus? Com o Seu povo! Com Seu povo no auge da guerra, do terrorismo e das calamidades; em meio ao pecado e injustiça; no foco do interesse mundial; no centro do ódio; em meio de injúrias e desprezo – é ali que podemos encontrá-lO. O ódio do mundo inteiro contra Deus será dirigido com crescente intensidade àqueles que têm um relacionamento vivo com o Deus da Bíblia e desejam permanecer fiéis a Ele. Portanto, na fase final da história mundial, judeus e cristãos serão atingidos juntamente pelo fogo do ódio. Dessa forma, demos a Jesus, nosso Senhor e Rei, a resposta do amor e façamos o seguinte compromisso:

O TEU POVO É O MEU POVO
Rute 1.16